Brasil entre FHC e Lula: economia, bem-estar, segurança, corrupção, tributação e liberdade de expressão Resumo executivo Esta pesquisa cobre o período iniciado no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1999, e chega aos dados disponíveis em 19 de agosto de 2026. O resultado mais importante é que os dados não sustentam uma narrativa linear segundo a qual o Brasil simplesmente “melhorou” ou simplesmente “desabou” durante todo o período petista. Há mudanças de direção muito claras, e elas não coincidem perfeitamente com a troca de presidentes.
O quadro econômico mais favorável dentro do recorte ocorreu, em vários indicadores, durante o segundo mandato de Lula: a inflação acumulada dos quatro anos foi de aproximadamente 22,2%, o PIB cresceu 7,5% em 2010, e o salário mínimo passou de R$ 350, herdados do final do primeiro mandato, para R$ 510. Ao mesmo tempo, a mortalidade infantil continuou caindo. Isso impede sustentar seriamente a afirmação de que “desde 2003 todos os indicadores econômicos e sociais só pioraram”.
Por outro lado, também não se sustenta a narrativa de que o ciclo petista foi um período contínuo de prosperidade. No primeiro governo Dilma, o crescimento terminou praticamente estagnado: o PIB de 2014 avançou somente 0,5%. Em 2015, já no segundo mandato, o PIB caiu 3,5%, a inflação atingiu 10,67%, e em 2016 o PIB caiu novamente, 3,3%. Foi uma das recessões mais severas da série moderna brasileira, iniciada antes da posse de Michel Temer.
O governo Bolsonaro também não pode ser avaliado isolando a pandemia. O PIB cresceu apenas 1,2% em 2019, caiu 3,3% em 2020 na série anual revisada pelo IBGE, recuperou 4,8% em 2021 e cresceu 3,0% em 2022. A inflação, porém, atingiu 10,06% em 2021, antes de cair para 5,79% em 2022. Portanto, tanto a narrativa de “desastre exclusivamente produzido pelo governo” quanto a de que “tudo foi apenas culpa da pandemia e do exterior” são excessivamente simplificadoras.
No terceiro governo Lula, os indicadores disponíveis até agosto de 2026 apresentam um quadro misto, e não uma deterioração generalizada: o PIB cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025; no primeiro trimestre de 2026 cresceu 1,1% contra o trimestre anterior e 1,8% contra o mesmo trimestre de 2025. A taxa anual de desemprego foi 5,6% em 2025, menor valor da PNAD Contínua desde 2012, e chegou a 5,4% no segundo trimestre de 2026. O rendimento domiciliar real per capita alcançou R$ 2.264 em 2025, recorde da série.
Isso não significa ausência de problemas. O IPCA fechou 2024 em 4,83%, 2025 em 4,26% e, em julho de 2026, acumulava 3,44% no ano e aproximadamente 4,44% em doze meses. O Banco Central registrava endividamento das famílias de 49,8% da renda acumulada em doze meses em maio de 2026 e comprometimento de renda de 28,5%. Assim, emprego e renda melhoraram ao mesmo tempo em que o peso das dívidas continuou elevado.
Na saúde, uma das tendências mais inequívocas dos vinte e cinco anos é a queda da mortalidade infantil. Na antiga projeção demográfica do IBGE, ela caiu de 29,02 mortes por mil nascidos vivos em 2000 para 26,04 em 2002, 21,04 em 2006, 17,22 em 2010 e 14,40 em 2014. A projeção demográfica mais recente revisou o nível de 2000 para 28,1, mas confirma a tendência; em 2024, a taxa estimada era 12,3 por mil. Portanto, a afirmação de que a mortalidade infantil “piorou continuamente sob o PT” é incompatível com as séries do IBGE.
Na corrupção, há fatos judicialmente estabelecidos que não devem ser minimizados: o Mensalão/AP 470 produziu condenações por corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e outros delitos; no esquema investigado na Petrobras, o Ministério Público Federal registrou mais de R$ 6,2 bilhões em propinas, enquanto estimativas de dano utilizadas por diferentes órgãos chegaram a patamares bem superiores — cerca de R$ 29 bilhões em uma referência do TCU e mais de R$ 42 bilhões em cálculo associado à investigação da PF. Esses números não são equivalentes entre si e não devem ser somados.
Também é incorreto transformar essas descobertas automaticamente numa condenação judicial válida do presidente Lula. As condenações da Justiça Federal de Curitiba contra Lula foram anuladas pelo STF em 2021 por incompetência daquele juízo, e a Segunda Turma reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex. Isso significa que aquelas condenações não têm validade jurídica hoje. Ao mesmo tempo, anulação processual por competência não equivale a uma sentença de mérito declarando que todos os fatos investigados jamais ocorreram. As duas simplificações são juridicamente erradas.
Na regulação das mídias, também existe grande distância entre discurso político e fato jurídico. Houve propostas e documentos governamentais durante governos do PT tratando de regulação/comunicação; entretanto, o Marco Civil da Internet de 2014 foi estruturado tendo a liberdade de expressão entre seus fundamentos. Em 2021, o governo Bolsonaro editou a MP 1.068 tentando limitar hipóteses de moderação de conteúdo pelas plataformas, mas a medida foi devolvida/rejeitada pelo Congresso. Já uma das alterações institucionais mais importantes sobre responsabilidade de plataformas ocorreu por decisão do STF em 26 de junho de 2025, que considerou parcialmente inconstitucional o modelo do artigo 19 do Marco Civil. Portanto, não é correto atribuir toda a atual arquitetura de regulação digital simplesmente a “uma lei de censura criada por Lula”.
Finalmente, a carga tributária do governo geral foi estimada pelo Tesouro em 32,40% do PIB em 2025, contra 32,22% em 2024, aumento de 0,18 ponto percentual. Isso é relevante, mas não demonstra por si só que “o Brasil nunca pagou tanto imposto”; séries de carga tributária mudam conforme metodologia, inclusão de contribuições e revisão do PIB.
Em outras palavras: há material robusto para uma crítica severa a vários governos — especialmente à recessão de 2015–2016, à corrupção sistêmica revelada na Petrobras, à inflação de 2002/2015/2021, ao alto endividamento familiar e a problemas persistentes de segurança e saneamento —, mas a crítica mais forte é justamente aquela que não precisa manipular os dados.
Método, fontes e limites de comparação O relatório utiliza prioritariamente IBGE, Banco Central, Tesouro Nacional, Receita Federal, Ipea, Ministério da Justiça/Sinesp, Ministério da Saúde, TCU, CGU, STF, STJ, MPF, Planalto, Petrobras e MDIC/ComexStat. Veículos jornalísticos não foram utilizados como sustentação principal das conclusões. As citações neste relatório funcionam como links diretos para as fontes consultadas.
Existem quatro problemas metodológicos que precisam ser explicitados antes de comparar presidentes.
Primeiro, algumas séries sofreram revisões. O PIB, por exemplo, é regularmente revisto pelo IBGE; por isso, números divulgados na época podem divergir dos valores atuais. É por essa razão que hoje o IBGE registra crescimento de 3,2% em 2023, embora a primeira divulgação tenha indicado 2,9%. Da mesma forma, a queda de 2020 aparece em publicação contemporânea como 4,1%, enquanto as Contas Nacionais anuais posteriormente revisadas a colocaram em 3,3%. Para comparações históricas, a série revisada mais recente deve prevalecer.
Segundo, o desemprego não tem uma série nacional perfeitamente homogênea desde 1999. A PNAD Contínua começa em 2012; antes disso, o IBGE utilizava PNAD anual e Pesquisa Mensal de Emprego com desenhos distintos. Comparar diretamente uma taxa da antiga PME de 2002 com a PNAD Contínua de 2026 produziria uma falsa precisão.
Terceiro, segurança pública é especialmente difícil. O Ministério da Justiça informa que a coleta federal de informações estaduais começou a ser estruturada em 2001, o SinespJC surgiu em 2004, o Sinesp foi instituído em 2012, novas integrações ocorreram a partir de 2014–2015 e o Validador de Dados Estatísticos passou a operar em 2023. Portanto, homicídios baseados no sistema de mortalidade/Ipea são mais úteis para longas séries do que simplesmente comparar boletins policiais de roubo, estupro ou feminicídio de 2001 com 2025.
Quarto, mortalidade bruta não é sinônimo de desempenho do sistema de saúde. Uma população que envelhece pode apresentar mais óbitos por habitante mesmo com melhor saúde e maior expectativa de vida. Mortalidade infantil, expectativa de vida, mortalidade por causas evitáveis ajustada por idade e cobertura de serviços são indicadores superiores. O IBGE publica tábuas de mortalidade precisamente para esse tipo de análise.
Há ainda duas lacunas importantes. Não existe uma série nacional contínua de “fila do SUS” de 1999 a 2026 com a mesma definição, e também não existe uma série nacional homogênea de “quantidade de integrantes de facções criminosas” por ano. Inventar esses números produziria exatamente o tipo de narrativa estatística que esta pesquisa pretende evitar. Os sistemas federais disponíveis devem ser usados conforme a variável e o período para os quais foram construídos.
Como foi calculada a inflação por mandato
Para tornar a comparação mais intuitiva, acumulei as taxas anuais oficiais de IPCA:
Inflação acumulada = [∏(1 + IPCA anual/100) − 1] ×
A fonte é a série histórica do próprio IBGE. Para o atual mandato, 2026 contém apenas janeiro a julho, portanto não é diretamente comparável a quatro anos completos.
O “ganho real aproximado” do salário mínimo, mostrado a seguir, compara o piso herdado no início do período e o valor final, descontando o IPCA acumulado. Não substitui uma série mensal real, porque as datas de reajuste do mínimo variaram ao longo do tempo.
Painel comparativo dos principais indicadores
| Salário | PIB no | |
|---|---|---|
| IPCA | Variação real | Mortalidade |
Período mínimo último ano
acumulado aproximada infantil
presidencial herdado → completo do
| no período | do mínimo | disponível |
|---|---|---|
| final | período |
FHC, 1999– R$ 130 → 2002:
Lula, 2003– R$ 200 → 2006:
≈28,2% ≈+36,5% 2006: +4,0%
Lula, 2007– R$ 350 → 2010:
≈22,2% ≈+19,2% 2010: +7,5%
Dilma, 2011– R$ 510 → 2014:
≈27,0% ≈+11,8% 2014: +0,5%
série antiga Dilma/Temer, R$ 724 → muda de
≈25,6% ≈+4,9% 2018: +1,8%
2015–2018 R$ 954 referência após 2015
Bolsonaro, R$ 954 → 2022:
2019–2022 R$ 1.212 ≈12,9/1.000
2025: +2,3%; R$ 1.212 Lula, 2023– 1º tri/26: 2024:
jul/2026 +1,1% 12,3/1.000 1.621 trimestral
¹ O último período é incompleto e o salário de R$ 1.621 entrou em vigor em janeiro de 2026. Fontes: série histórica de IPCA e PIB do IBGE; histórico oficial do salário mínimo; projeções demográficas do IBGE.
A tabela já revela algo politicamente incômodo para narrativas dos dois lados. O ganho aproximado de poder de compra do salário mínimo foi muito maior nos governos Lula que no governo Bolsonaro, mas isso não impediu grave deterioração macroeconômica no ciclo Dilma. Ao mesmo tempo, o terceiro governo Lula registra emprego e renda fortes até 2026, mas dívida das famílias elevada e carga tributária em alta recente.
Inflação e preços que mais atingiram a população
Três episódios merecem ser separados porque uma média de quatro anos esconde choques violentos.
Em 2002, o IPCA chegou a 12,53%, maior inflação anual do período FHC II e nível que só voltaria a ser aproximado em 2015. Em 2003, já sob Lula, ainda foi 9,30%, caindo para 7,60% em 2004, 5,69% em 2005 e 3,14% em 2006.
Em 2015, o IPCA atingiu 10,67%, maior valor desde 2002. O episódio coincidiu com forte reajuste de preços administrados, incluindo energia elétrica, e ocorreu simultaneamente ao início da profunda recessão. Portanto, não foi apenas “inflação externa”.
Em 2021, o IPCA novamente atingiu dois dígitos, 10,06%. Em 2022 caiu para 5,79%. Esse segundo episódio ocorreu em ambiente de pandemia, problemas internacionais de oferta, energia e combustíveis, mas também passou pela transmissão do câmbio e decisões domésticas. Reduzir o fenômeno a uma única causa seria incorreto.
Já em 2024 o IPCA terminou em 4,83%, em 2025 caiu para 4,26%, e em julho de 2026 estava em 0,07% no mês, 3,44% no ano e cerca de 4,44% em doze meses. Isso não significa que “os preços voltaram ao que eram”: inflação menor significa que o nível de preços cresce mais lentamente, não que as altas anteriores foram revertidas.
Emprego, renda, consumo e dívida
A partir da série comparável da PNAD Contínua, iniciada em 2012, o desemprego aumentou fortemente após 2014, permaneceu elevado por vários anos, voltou a subir durante a pandemia e depois recuou. Em 2025, a média anual chegou a 5,6%, contra 6,6% em 2024, e no segundo trimestre de 2026 alcançou 5,4%.
O rendimento domiciliar real per capita alcançou R$ 2.264 em 2025, o maior da série da PNAD Contínua. Portanto, a afirmação de que em 2025–2026 “a renda real do brasileiro está no pior nível da história recente” é diretamente contradita pelo IBGE. Isso não significa que todos os grupos ou estados estejam melhores, nem que o custo de itens específicos, como alimentação e moradia, tenha caído.
Ao mesmo tempo, o Banco Central estimava em maio de 2026 endividamento das famílias de 49,8% da renda acumulada em doze meses e comprometimento de renda de 28,5%. Esse é um dos melhores exemplos de por que “consumo forte” e “famílias financeiramente pressionadas” podem ocorrer simultaneamente.
Em 2024, o consumo das famílias nas Contas Nacionais cresceu 4,8%, ajudando o PIB a avançar 3,4%. Esse dado combina com o quadro de emprego e renda mais fortes, mas não elimina o problema da alavancagem familiar.
Para crédito habitacional, automóveis e cartão, o Banco Central disponibiliza séries por modalidade, mas alterações de classificação e abrangência tornam inadequado simplesmente colar um valor de 2003 ao lado de 2026 sem tratamento metodológico. A estatística agregada atual é, por isso, mais segura para o painel principal.
Saúde, mortalidade e saneamento
A redução da mortalidade infantil atravessa FHC, Lula, Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula novamente, o que sugere um processo de longo prazo influenciado por atenção básica, vacinação, renda, escolaridade materna, saneamento e transformação demográfica — e não uma realização isolada de um presidente.
A série antiga do IBGE mostra:
| Ano | Mortes infantis por mil nascidos vivos |
|---|---|
| 2000 | 29,02 |
| 2002 | 26,04 |
| Ano | Mortes infantis por mil nascidos vivos |
| 2006 | 21,04 |
| 2010 | 17,22 |
| 2014 | 14,40 |
| 2015 | 13,82 |
Fonte: projeção demográfica do IBGE publicada anteriormente.
A revisão demográfica mais recente estima 28,1 em 2000 e 12,5 em 2023; em 2024 o IBGE estimou 12,3 por mil. A diferença entre 29,02 e 28,1 para 2000 é um exemplo de revisão metodológica, não de manipulação.
A expectativa de vida chegou a 76,4 anos em 2023 e 76,6 em 2024, tendo recuperado o patamar perdido durante a pandemia. Isso demonstra por que usar apenas “número total de mortos” para comparar governos é estatisticamente inadequado.
O saneamento melhorou no longo prazo, mas continua incompleto. Os Censos de 2000, 2010 e 2022 e a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico mostram expansão de acesso a água, banheiro e soluções de esgotamento, ao mesmo tempo em que persistem grandes desigualdades regionais. É necessário diferenciar “município com rede de esgoto” de “proporção de moradores efetivamente ligados à rede”; misturar esses dois indicadores gera comparações falsas.
No financiamento, também é necessário distinguir gasto federal de gasto do SUS completo, pois estados e municípios financiam parte relevante do sistema. O Ipea disponibiliza série tripartite de ações e serviços públicos de saúde para 2012–2022, enquanto o Portal da Transparência apresenta a execução federal.
Segurança pública
O indicador mais adequado para uma comparação de longo prazo é homicídio, utilizando registros de mortalidade harmonizados pelo Ipea/Atlas da Violência. A série oficial disponibilizada cobre 2000–2024 e mostra expansão da violência letal até a segunda metade da década de 2010, seguida por importante redução depois do pico em torno de 2017.
É incorreto, porém, transformar isso numa avaliação automática do presidente. Polícias Civil e Militar, investigação de homicídios e grande parte do policiamento são estaduais; União, estados, municípios, sistema penitenciário, Ministério Público, Judiciário e dinâmica das facções interagem no resultado. O próprio Ministério da Justiça descreve a evolução gradual da integração nacional de informações de segurança.
O Mapa da Segurança Pública 2026, divulgado em 31 de julho de 2026, consolida dados das 27 unidades da Federação e trinta indicadores referentes, principalmente, a 2025. Essa é a melhor fonte oficial para o quadro corrente, enquanto o Atlas/Ipea é superior para comparar a violência letal ao longo das décadas.
Roubo, furto e violência sexual são ainda mais sensíveis a alterações de registro e subnotificação. Feminicídio, por sua vez, é uma categoria jurídico-estatística muito mais recente e não pode ser retroativamente comparada com 1999 como se os boletins policiais sempre tivessem usado a mesma
definição. A atual arquitetura Sinesp registra homicídio doloso, latrocínio, feminicídio, estupro, roubos, furtos, drogas, armas e outros indicadores, mas a própria história do sistema mostra as mudanças de cobertura.
Leitura cronológica por governo
Linha do tempo econômica, social e institucional
| 1999 | 2002 | 2003 | 2005 | 2006 | 2008 | 2010 | 2012 | 2014 | 2015 | 2016 | 2017 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | 2026 |
| Início do segundo | IPCA 12,53% | Início do primeiro | Crise política do | IPCA 3,14% | Primeiro óleo do | PIB cresce 7,5% | Julgamento da AP | Copa do Mundo | IPCA 10,67% | PIB cai 3,3% | Violência letal | Início do governo | Pandemia e | IPCA 10,06% | PIB cresce 3,0% | Início do terceiro | PIB cresce 3,4% | Desemprego anual | Salário mínimo R$ |
| mandato FHC | governo Lula | Mensalão | pré-sal | 470 no STF | próxima do pico da | Bolsonaro | recessão | governo Lula | 5,6% | 1.621 |
| PIB cresce 3,1% | Descoberta | PIB cresce apenas | PIB cai 3,5% | Impeachment de | IPCA 5,79% | |
| comercial do | Crise financeira | 0,5% | Dilma | Reforma tributária | STF redefine | Desemprego 5,4% |
| pré-sal | internacional | constitucional | responsabilidade | no segundo | ||
| de plataformas | trimestre | |||||
| Lava Jato e crise | Jogos Olímpicos |
Petrobras
Os pontos econômicos da linha do tempo são sustentados pelas séries oficiais de IBGE; o pré-sal teve descoberta comercial em 2006 e primeira produção em 2008; Mensalão e mudanças de responsabilidade das plataformas decorrem dos registros do STF.
Fernando Henrique Cardoso — segundo mandato
O período começou com salário mínimo de R$ 130, elevado para R$ 136 em maio de 1999, e terminou com R$ 200. A inflação acumulada aproximada de 1999 a 2002 foi 39,9%, com forte aceleração no último ano: 12,53% em 2002. Portanto, o ponto de partida de Lula não foi uma economia com inflação de 3% ou 4%, e sim um ano de pressão inflacionária muito elevada.
O PIB cresceu 3,1% em 2002 na série atual. Entre 2000 e 2002, a série do IBGE mostra crescimento real agregado, mas sem a aceleração que apareceria depois.
A mortalidade infantil caiu de 29,02 por mil em 2000 para 26,04 em 2002 na projeção antiga do IBGE. Logo, a melhora nesse indicador começou antes de Lula e continuou durante os governos seguintes. Atribuí-la integralmente ao PT é incorreto; dizer que o PT interrompeu a tendência também é incorreto.
As bases nacionais de segurança ainda eram fragmentadas. O próprio Ministério da Justiça informa que o esforço sistemático federal de coleta começou em 2001, razão pela qual indicadores policiais desse período não devem ser tratados como perfeitamente comparáveis aos atuais.
Lula — primeiro mandato
Este período apresenta uma das mudanças macroeconômicas mais claras do recorte. O IPCA passou de 9,30% em 2003 para 7,60% em 2004, 5,69% em 2005 e 3,14% em 2006. A inflação acumulada dos quatro anos foi aproximadamente 28,2%, substancialmente inferior aos quase 40% dos quatro anos anteriores.
O salário mínimo passou de R$ 200 herdados de 2002 para R$ 350 em 2006. Descontada aproximadamente a inflação dos quatro anos, isso representa ganho de poder de compra da ordem de 36%, embora o cálculo exato dependa das datas mensais de reajuste.
O PIB de 2006 cresceu 4,0%, chegando a R$ 2,37 trilhões em valores correntes da época.
A mortalidade infantil caiu de 24,68 por mil em 2003 para 21,04 em 2006, prolongando a melhora iniciada anteriormente.
Em política econômica, Lula declarou posteriormente que a Carta ao Povo Brasileiro representava compromisso com estabilidade e respeito aos contratos. O comportamento da inflação entre 2003 e 2006 é consistente com a parte da promessa referente à preservação da estabilidade monetária, embora isso não prove que toda a melhora tenha sido causada pelo governo.
Foi também durante esse mandato que se estruturou o Simples Nacional, por meio da Lei Complementar 123/2006, uma mudança tributária importante para micro e pequenas empresas e um bom exemplo de política tributária que não pode ser reduzida à dicotomia “criou imposto/não criou imposto”.
Do lado institucional, entretanto, o Mensalão rompe a narrativa de que o período de crescimento e expansão social significou boa governança em todas as dimensões. O caso posteriormente julgado na AP 470 resultou em condenações por crimes relacionados a corrupção, peculato e lavagem de dinheiro.
Lula — segundo mandato
A inflação acumulada aproximada de 2007–2010 foi 22,2%, a menor entre os períodos presidenciais completos comparados neste relatório. O IPCA foi 4,46% em 2007, 5,90% em 2008, 4,31% em 2009 e 5,91% em 2010.
O PIB cresceu 7,5% em 2010, uma expansão excepcional para os padrões brasileiros recentes. Isso ocorreu depois da desaceleração causada pela crise internacional e deve ser interpretado tanto como recuperação quanto como resultado de condições domésticas e externas favoráveis.
O salário mínimo passou de R$ 350 para R$ 510. Comparado à inflação acumulada, o ganho real aproximado foi de 19% no segundo mandato, adicional ao forte ganho do primeiro.
A mortalidade infantil caiu para 17,22 por mil em 2010, uma redução aproximada de um terço em relação a 2002 na série antiga do IBGE.
Um ativo econômico estrutural surgiu nesse ciclo: a Petrobras informa que a descoberta comercial do pré-sal ocorreu em 2006, a produção começou em 2008 em Jubarte e em 2009 na Bacia de Santos. O pré-sal, portanto, não deve ser apresentado como uma descoberta do governo Dilma ou Bolsonaro; sua materialização econômica atravessa vários governos.
Essa é também a fase em que se situam partes importantes dos fatos posteriormente investigados na Petrobras. Isso obriga a separar duas análises: bons indicadores econômicos não inocentam corrupção, e corrupção comprovada não apaga bons indicadores econômicos. Confundir essas duas proposições é propaganda, não análise.
Dilma Rousseff — primeiro mandato
O primeiro mandato Dilma é o ponto em que a tendência macroeconômica começa a mudar com clareza. A inflação anual permaneceu próxima da parte superior do regime de metas e fechou 2014 em 6,41%. A inflação acumulada de 2011–2014 foi de aproximadamente 27%.
O problema mais grave foi a desaceleração do crescimento. Na série revisada, o PIB cresceu 4,0% em 2011, desacelerou nos anos seguintes e terminou 2014 avançando apenas 0,5%.
Ao mesmo tempo, não houve destruição imediata dos indicadores sociais. O salário mínimo chegou a R$ 724 em 2014, e a mortalidade infantil caiu para 14,40 por mil. Assim, o quadro correto é de deterioração macroeconômica acompanhada por continuidade de parte dos ganhos sociais anteriores, e não de uma virada simultânea de todos os indicadores.
A Copa do Mundo ocorreu em 2014 e as Olimpíadas seriam realizadas em 2016. O TCU manteve fiscalização de investimentos relacionados aos megaeventos. Não é metodologicamente correto tratar todo financiamento, investimento urbano, operação de evento e empréstimo como se fossem uma única “conta perdida” paga pelo governo federal; cada categoria possui natureza fiscal distinta.
No mesmo ano de 2014, a investigação sobre a Petrobras mudaria completamente o debate público sobre corrupção. O que posteriormente foi documentado pelo MPF indica esquema de propinas envolvendo executivos, fornecedores e agentes políticos em escala multibilionária.
Dilma Rousseff e Michel Temer
A ruptura econômica é inequívoca. O IPCA atingiu 10,67% em 2015. No mesmo ano, o PIB caiu 3,5%; em 2016 caiu mais 3,3%. O biênio acumulou perda de produto que não pode ser explicado por uma simples alternância normal do ciclo.
Isso é especialmente importante para a atribuição política: a recessão começou e se aprofundou ainda com Dilma, embora Temer tenha assumido durante 2016. Portanto, atribuir toda a queda de 2015–2016 ao governo Temer é cronologicamente impossível. Igualmente, atribuir toda a fraca recuperação posterior apenas às políticas de Temer ignora o efeito mecânico de recuperação após uma queda tão profunda.
O PIB voltou a crescer 1,3% em 2017 e 1,8% em 2018, mas a recuperação foi insuficiente para apagar rapidamente a contração acumulada de 2015–2016.
Na segurança, a violência letal atingiu níveis muito altos na segunda metade da década de 2010, seguida de queda. Como a tendência atravessa Dilma, Temer e Bolsonaro, atribuí-la integralmente a um único presidente é especialmente frágil.
Na corrupção, um caso próximo ao núcleo governamental de Temer possui resultado judicial concreto: Geddel Vieira Lima, ex-ministro, e seu irmão Lúcio foram condenados no STF em processo relacionado aos R$ 51 milhões encontrados em um apartamento em Salvador. Posteriormente, a condenação de Geddel por associação criminosa foi afastada em embargos, permanecendo aspectos da condenação por lavagem. Esse detalhe processual é importante para não apresentar uma decisão antiga como se todos os seus termos continuassem inalterados.
Jair Bolsonaro
Antes da pandemia, o PIB cresceu 1,2% em 2019. Em 2020, a série anual revisada registra queda de 3,3%, que o próprio IBGE relaciona ao impacto da pandemia, especialmente sobre os serviços. Em 2021 houve recuperação de 4,8%, seguida de crescimento de 3,0% em 2022.
Portanto, o saldo real aproximado do produto entre 2019 e 2022 foi positivo, mas modesto quando observado o período completo: a forte taxa de 2021 foi em parte recuperação da perda de 2020. Apresentar apenas “PIB +4,8% em 2021” sem mostrar a queda anterior distorce o quadro; apresentar apenas “PIB caiu na pandemia” e ignorar a recuperação também distorce.
A inflação acumulada de 2019–2022 foi aproximadamente 26,9%. O ano crítico foi 2021, com 10,06%; 2022 terminou em 5,79%.
O salário mínimo saiu de R$ 954, herdados de 2018, para R$ 1.212 em 2022. A elevação nominal foi aproximadamente equivalente à inflação acumulada do período, o que significa ganho real muito pequeno na comparação simples de ponta a ponta.
A mortalidade infantil estimada em 2022 ficou próxima de 12,9 por mil, preservando a tendência estrutural de queda.
Na liberdade de expressão existe um fato que frequentemente desaparece do debate: em 2021 o governo Bolsonaro editou a MP 1.068, alterando regras de redes sociais e restringindo hipóteses em que plataformas poderiam suspender ou remover usuários e conteúdos. A medida acabou rejeitada/ devolvida pelo Congresso. Assim, intervenção regulatória sobre moderação de plataformas não foi uma preocupação exclusiva do PT.
Entre 2019 e 2024 também ocorreram os descontos associativos que posteriormente deram origem à Operação Sem Desconto no INSS. Autoridades passaram a trabalhar com magnitude de aproximadamente R$ 6,3 bilhões em descontos questionados no período. Como a investigação alcança anos dos governos Bolsonaro e Lula e envolve associações, beneficiários, funcionários e controles administrativos, classificá-la antecipadamente como “R$ 6,3 bilhões roubados pelo governo Bolsonaro” ou “pelo governo Lula” não é sustentado pelo estágio jurídico do caso.
Luiz Inácio Lula da Silva — terceiro mandato
Os dados disponíveis não mostram recessão até agosto de 2026. O PIB cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. No primeiro trimestre de 2026 cresceu 1,1% contra o trimestre anterior e 1,8% contra igual período de 2025.
O ritmo, porém, desacelerou de 3,4% para 2,3% entre 2024 e 2025. Assim, dizer que “o Brasil está em recessão” não corresponde aos dados divulgados; dizer que o crescimento está acelerando continuamente também não corresponde.
A inflação foi 4,62% em 2023, 4,83% em 2024 e 4,26% em 2025. Até julho de 2026 acumulava 3,44% no ano e aproximadamente 4,44% em doze meses.
O salário mínimo foi elevado para R$ 1.621 em janeiro de 2026. Comparando R$ 1.212 no fim de 2022 com R$ 1.621 e descontando aproximadamente o IPCA acumulado de 2023 a julho de 2026, a recuperação real de ponta a ponta fica na ordem de 13%. Novamente, isso é aproximação; uma série mensal produziria resultado ligeiramente diferente.
O mercado de trabalho é um dos indicadores mais favoráveis: desemprego médio 5,6% em 2025 e 5,4% no segundo trimestre de 2026. A renda domiciliar per capita real chegou ao recorde de R$ 2.264 em 2025.