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1999 – agosto de 2026

Moeda, poder de compra, setor externo, fiscalidade e integridade pública

Câmbio, balança comercial e contas públicas em série longa

Método: Separa efeito de preço internacional, câmbio e política doméstica sobre saldo externo, arrecadação e resultado primário.

Em uma leitura rápida

  • O real muda de patamar em três momentos distintos do recorte: 1999, 2015–2016 e 2020–2022.
  • Saldos comerciais recordes coincidem com preços de commodities e pré-sal, não apenas com política comercial.
  • Arrecadação e resultado primário respondem a crescimento nominal, Congresso e desonerações, além da vontade do Executivo.
  • Casos de integridade pública têm valores oficialmente quantificados e períodos próprios — nenhum equivale a um “total desviado”.

Brasil de 1999 a 2026: moeda, inflação, poder de compra, setor externo, fiscalidade e integridade pública Sumário executivo O retrato dos dados entre 1999 e agosto de 2026 é mais complexo do que qualquer narrativa partidária simples. Não existe uma trajetória linear de melhora sob um grupo e deterioração sob outro. Há mudanças estruturais, ciclos externos muito diferentes, crises globais, decisões de política econômica, choques de commodities, expansão e contração de crédito, pandemia, guerra, alterações tributárias e episódios relevantes de corrupção. O período precisa ser comparado em condições de partida distintas.

O segundo mandato FHC começou em 1999 praticamente junto à mudança para câmbio flutuante e à adoção do regime de metas de inflação. O período terminou com IPCA de 12,53% em 2002, forte depreciação cambial e apenas cerca de US$37,8 bilhões em reservas internacionais. O câmbio médio foi de aproximadamente R$1,81/US$ em 1999 para R$2,92 em 2002.

Nos dois primeiros mandatos Lula, inflação e câmbio melhoraram substancialmente em relação ao estresse de 2002, o crescimento real médio aumentou e as reservas internacionais deram um salto. Entre 2003 e 2010, o Brasil também recebeu um contexto externo particularmente favorável: o Banco Mundial registra que, como grande exportador de commodities, o país se beneficiou de termos de troca excepcionalmente favoráveis durante grande parte dos anos 2000, ajudando inclusive a geração de superávits primários. As exportações brasileiras quase triplicaram no ciclo 2000–2010. Portanto, seria incorreto atribuir todo o desempenho apenas à política doméstica; mas também seria incorreto dizer que foi exclusivamente “sorte das commodities”.

O primeiro mandato Dilma teve inflação persistentemente ao redor do teto do regime então vigente e desaceleração do PIB; o período 2015–2016 registrou a mais grave recessão brasileira antes da pandemia, com queda do PIB real de aproximadamente 3,5% em cada um dos dois anos e IPCA de 10,67% em 2015. A inflação cedeu fortemente nos anos seguintes, chegando a 2,95% em 2017 e 3,75% em 2018, mas a recuperação econômica permaneceu fraca.

No governo Bolsonaro, a pandemia produz a maior ruptura monetária do período recente: o M1 passa de cerca de R$447,7 bilhões no fim de 2019 para R$641,1 bilhões no fim de 2020, aproximadamente +43% em um ano. Depois vieram gargalos globais, commodities, crise energética e, em 2022, a guerra na Ucrânia; o próprio BCB documentou o choque sobre combustíveis, alimentos e commodities. O IPCA chegou a 10,06% em 2021 e 5,79% em 2022. Assim, atribuir a inflação de 2021–22 exclusivamente a “impressão de dinheiro” ou exclusivamente ao exterior é metodologicamente errado: os dois grupos de fatores existiram simultaneamente.

No terceiro governo Lula, o PIB real cresceu aproximadamente 3,24% em 2023, 3,42% em 2024 e 2,29% em 2025 segundo a base internacional harmonizada do Banco Mundial; o IPCA fechou 2025 em 4,26%. Em julho de 2026, a inflação acumulada em doze meses estava em 4,44%, portanto ligeiramente dentro

do limite superior de 4,5% da atual meta contínua de 3% ±1,5 ponto percentual. Entretanto, o Focus de 14 de agosto projetava 5,02% para 2026, acima do teto, e Selic de 13,75% no fim do ano; a Selic corrente havia sido reduzida para 14,00% em 5 de agosto. Há, portanto, risco relevante de inflação persistentemente acima da meta, mas os dados disponíveis não caracterizam hoje um surto inflacionário descontrolado.

O ponto que mais preocupa em agosto de 2026 não é uma explosão de M1. Entre junho de 2025 e junho de 2026, o M1 avançou apenas cerca de 3,9%, enquanto o M2 aumentou cerca de 10,1%. A questão mais sensível está na combinação entre inflação ainda acima do centro da meta, expectativa desancorada, juros altos, DBGG em 81,9% do PIB, déficit nominal acumulado em doze meses de 9,99% do PIB e custo de juros de 8,80% do PIB. Isso aumenta a vulnerabilidade do câmbio a choques fiscais ou externos.

Ao mesmo tempo, o país possui um amortecedor externo que não existia em 1999–2002: reservas internacionais de aproximadamente US$367,6 bilhões em junho de 2026, contra US$37,8 bilhões no fim de 2002. Isso torna uma crise clássica de balanço de pagamentos significativamente menos provável, embora não impeça depreciação cambial, inflação importada ou fuga de capital.

Sobre corrupção, os números precisam ser tratados com extremo cuidado. Valor investigado, possível prejuízo, multa, restituição pedida, acordo de leniência, valor recuperado e dinheiro comprovadamente desviado não são a mesma coisa. Na Lava Jato, por exemplo, o MPF registrou cerca de R$14,3 bilhões previstos em diferentes acordos e cerca de R$4,07 bilhões efetivamente devolvidos em determinado estágio da operação. Na Greenfield, houve estimativa investigativa de possível prejuízo de até R$8 bilhões. Já o conjunto de acordos de leniência CGU/AGU havia superado R$20 bilhões pactuados e R$11,17 bilhões efetivamente recuperados até dezembro de 2025. Esses números não podem ser simplesmente somados porque há conceitos e possíveis sobreposições diferentes.

A conclusão central é que os dados contradizem simultaneamente narrativas simplistas de esquerda e de direita. O Real perdeu enorme valor nominal frente ao dólar no horizonte de 27 anos, mas houve importante apreciação durante parte dos governos Lula; o poder de compra do salário mínimo aumentou muito apesar da desvalorização cambial de longo prazo; os agregados monetários aumentaram várias vezes, mas M4 não é sinônimo de “dinheiro impresso”; o pré-sal efetivamente gerou enorme capacidade produtiva e receitas, mas não é um cheque de dinheiro gratuito; corrupção documentada teve dimensão bilionária, porém somar todos os números divulgados como “dinheiro roubado” produz um valor falso; e o quadro fiscal de 2026 é objetivamente mais arriscado do que indicadores isolados de emprego ou PIB sugerem.

Metodologia, fontes e limitações A análise foi construída prioritariamente com Banco Central, IBGE, Tesouro Nacional, Receita Federal, Ministério do Desenvolvimento/Comex Stat, TCU, CGU, AGU, MPF, STF, Petrobras, Banco Mundial, FMI e DIEESE. Veículos jornalísticos não foram utilizados como base para os números centrais. As séries monetárias do Banco Central foram utilizadas diretamente pelo SGS; IPCA pelo IBGE/ BCB; câmbio, PIB e reservas foram cruzados com as séries internacionais harmonizadas do Banco Mundial/IMF.

As bases principais podem ser auditadas diretamente em: BCB M1/SGS 27791, BCB M2/SGS 27810, BCB M3/SGS 27813, BCB M4/SGS 27815, IBGE/IPCA, Pesquisa da Cesta Básica/DIEESE, Focus/BCB, Estatísticas fiscais/BCB e Comex Stat.

Há uma primeira correção importante em relação ao pedido original: não existe uma série monetária denominada “cesta básica do IBGE” em reais que possa ser simplesmente baixada para 1999– 2026. O IBGE produz IPCA e INPC; o INPC foi justamente desenhado para acompanhar a variação dos preços para famílias assalariadas. A pesquisa que atribui um valor mensal em reais a uma cesta de alimentos é a Pesquisa Nacional da Cesta Básica do DIEESE.

Além disso, a cesta não é perfeitamente homogênea no tempo nem geograficamente. São Paulo possui série desde janeiro de 1959, mas a cobertura passou a todas as 27 capitais somente em 2016, quando houve revisão de metodologia, locais de coleta, ponderação, marcas e tipos de produtos. As próprias quantidades da cesta variam entre regiões. Por isso, apresentar uma falsa “média nacional da cesta básica 1999–2026” seria metodologicamente incorreto.

Também não existe uma única série perfeitamente homogênea de “salário médio nacional” de 1999 a 2026: a antiga PNAD e a PNAD Contínua têm desenhos distintos. Por isso, o relatório utiliza o salário mínimo para a comparação longa e, na fase recente, acrescenta o rendimento real da PNAD Contínua. Em 2025, o rendimento médio real habitual dos ocupados foi estimado pelo IBGE em R$3.560; o rendimento domiciliar per capita nominal nacional divulgado para 2025 foi R$2.316.

O mesmo cuidado vale para “força da moeda”. A cotação nominal R$/US$ mede uma dimensão; a taxa real efetiva de câmbio considera inflação relativa e parceiros comerciais. A base internacional para REER existe, mas, para evitar misturar índices com diferentes bases, os gráficos deste relatório concentram- se no câmbio nominal médio e indicam a base internacional de REER separadamente: World Bank — Real Effective Exchange Rate. A série de câmbio nominal utilizada vem do IMF/IFS por meio do Banco Mundial.

Os agregados monetários também exigem uma advertência fundamental. Pela metodologia do BCB, M1 = papel-moeda em poder do público + depósitos à vista; M2 = M1 + poupança + títulos privados emitidos por instituições depositárias; M3 acrescenta quotas de determinados fundos e compromissadas; M4 acrescenta títulos públicos federais. Portanto, dizer que “M4 = dinheiro que o governo imprimiu” é factual e conceitualmente errado.

As novas séries revisadas de M1–M4 têm histórico homogêneo essencialmente a partir de 2001. Consequentemente, a comparação monetária de 1999–2000 não possui a mesma metodologia usada no restante do gráfico.

Para facilitar auditoria e reutilização dos números utilizados nos gráficos, foi gerada uma planilha: baixar painel Brasil 1999–2026. Os valores de 2026 são parciais quando indicado e não devem ser confundidos com fechamento anual.

Cronologia dos governos e da conjuntura econômica O painel abaixo resume os indicadores comparáveis. O IPCA é a inflação de dezembro contra dezembro, enquanto PIB e câmbio são médias anuais. Para 2023–2026, as médias de PIB/IPCA/câmbio utilizam os anos fechados disponíveis até 2025; as reservas e M4 mostram o dado mais recente de 2026 quando disponível. As séries de PIB, câmbio e reservas vêm de bases internacionais harmonizadas; o IPCA de IBGE/BCB; o M4, do SGS.

IPCA PIB real R$/US$ Reservas no M4 no

Período

médio médio médio fim fim

R$0,80 FHC II — 1999–2002 8,78% 2,32% R$2,23 US$37,8 bi tri*

Lula I — 2003–2006 6,43% 3,52% R$2,65 US$85,8 bi R$1,51 tri

Lula II — 2007–2010 5,15% 4,64% R$1,88 US$288,6 bi R$2,98 tri

Dilma I — 2011–2014 6,17% 2,35% R$2,03 US$363,6 bi R$4,77 tri

Dilma II/Temer —

5,92% -0,93% R$3,42 US$374,7 bi R$6,76 tri

Bolsonaro — 2019– R$10,71

6,17% 1,43% R$4,91 US$324,7 bi

R$15,76 Lula III — 2023–2026** 4,57% 2,98% R$5,32 US$367,6 bi tri

* A série revisada de M4 começa em 2001. ** Médias macroeconômicas apenas 2023–2025; reservas e M4 são dados disponíveis de 2026.

FHC II, 1999–2002. O ponto de partida importa. Em 1999, o Brasil migrou para câmbio flutuante e introduziu metas de inflação. O câmbio médio subiu de aproximadamente R$1,81/US$ em 1999 para R$2,92 em 2002; o IPCA encerrou 2002 em 12,53%. Portanto, Lula recebeu em janeiro de 2003 uma economia com inflação e risco cambial elevados, mas já operando sob o chamado tripé de metas de inflação, câmbio flutuante e disciplina fiscal que continuaria sendo utilizado.

Lula I, 2003–2006. O IPCA caiu de 9,30% em 2003 para 3,14% em 2006, enquanto as reservas passaram de aproximadamente US$49,3 bilhões em 2003 para US$85,8 bilhões em 2006. O crescimento real médio foi de cerca de 3,5%. O comportamento não pode ser explicado somente pela mudança de presidente: houve preservação do regime monetário anterior, aumento do comércio mundial, melhores termos de troca e expansão doméstica de crédito e renda.

Lula II, 2007–2010. Esse foi o melhor quadriênio do período em crescimento médio, aproximadamente 4,6%, mesmo incluindo a contração de 2009 provocada pela crise financeira internacional. O PIB avançou cerca de 7,5% em 2010. As reservas foram de aproximadamente US$180 bilhões em 2007 para US$289 bilhões em 2010. O BCB documentou o agravamento da crise mundial em 2008–2009; logo, o recuo de 2009 e a forte recuperação de 2010 precisam ser entendidos no contexto da crise e da resposta anticíclica.

Dilma I, 2011–2014. O crescimento desacelerou: cerca de 4,0% em 2011, 1,9% em 2012, 3,0% em 2013 e apenas 0,5% em 2014 na série harmonizada. O IPCA permaneceu na faixa de aproximadamente 5,8%– 6,5%. Essa deterioração ocorreu ao mesmo tempo em que o ciclo extraordinário de commodities perdia força; o Banco Mundial identifica 2011 como ponto de inflexão do superciclo. Há, portanto, combinação de choque externo e escolhas domésticas — não evidência para uma explicação monocausal.

Dilma II/Temer, 2015–2018. O PIB recuou cerca de 3,55% em 2015 e 3,28% em 2016. O IPCA chegou a 10,67% em 2015. Já 2017 e 2018 registraram crescimento positivo, porém modesto, e inflação de apenas 2,95% e 3,75%. Isso significa que a estabilização dos preços foi relativamente rápida, mas a reconstrução da atividade econômica foi muito mais lenta.

Bolsonaro, 2019–2022. O governo começou com crescimento baixo em 2019, sofreu contração de 3,28% em 2020 e forte recomposição em 2021. A pandemia coincide com uma expansão extraordinária de liquidez, enquanto 2021–22 adicionaram choques de cadeias produtivas, alimentos, energia e guerra. O BCB explicitamente relacionou o choque de oferta de 2022 à guerra na Ucrânia e à oferta mundial de combustíveis e commodities.

Lula III, 2023–agosto de 2026. Luiz Inácio Lula da Silva permanece no exercício da Presidência em 2026. O PIB cresceu 3,24% em 2023, 3,42% em 2024 e aproximadamente 2,29% em 2025 na série harmonizada. Ao mesmo tempo, a inflação permaneceu acima do centro da meta: 4,62%, 4,83% e 4,26%. Em julho de 2026, o IPCA em doze meses estava em 4,44%, enquanto o mercado consultado pelo Focus esperava 5,02% para o fechamento de 2026.

A linha do tempo macroeconômica pode ser condensada assim:

Brasil 1999–2026 — choques e inflexões

199920022003-200720062008-200920102011-201420142015-201620162017-20192020202120222023-202420252026
câmbio flutuanteforte estressecrescimento dodescobertacrise financeiraforte recuperaçãoperda deCopa do Mundorecessão profundaJogos Olímpicos Rioinflação baixapandemiainflação volta a doisguerra na Ucrânianovo arcabouçoinício da metaCBS/IBS em fase de
cambial ecomérciocomercial doglobaldo PIBdinamismodígitosfiscalcontínua deteste
inflacionáriocommoditiespré-salinflação
regime de metas deinflação de doisrecuperaçãosalto extraordináriochoque mundial de
inflaçãocontração brasileirafim do superciclodígitos em 2015econômica lentade M1 e políticaenergia e alimentosreforma tributáriaSelic ainda muito
acumulaçãoem 2009extraordinário defiscal emergencialdo consumoelevada
acelerada decommodities

reservas DBGG chega a 81,9% do PIB em junho

Os pontos monetários são documentados pelo BCB; a descoberta comercial do pré-sal ocorreu em 2006 segundo a Petrobras; a crise financeira de 2008–09 e a guerra de 2022 são explicitamente tratadas nos Relatórios de Inflação; e a reforma tributária entrou em fase de teste em 2026.

Moeda, inflação, câmbio e poder de compra Entre dezembro de 2002 e junho de 2026, o M1 passou de aproximadamente R$110 bilhões para R$663 bilhões; o M2, de R$400 bilhões para R$7,65 trilhões; e o M4, de cerca de R$800 bilhões para R$15,76 trilhões. Esses valores são nominais: uma parcela relevante do crescimento é consequência de inflação, crescimento econômico, aprofundamento financeiro e aumento do estoque de títulos, e não de emissão direta de moeda física.

DataM1M2M4
dez/2002R$0,110 triR$0,400 triR$0,800 tri
dez/2006R$0,177 triR$0,657 triR$1,506 tri
dez/2010R$0,288 triR$1,388 triR$2,977 tri
dez/2014R$0,363 triR$2,186 triR$4,775 tri
dez/2018R$0,410 triR$2,851 triR$6,761 tri
dez/2022R$0,646 triR$5,105 triR$10,710 tri
dez/2025R$0,666 triR$7,394 triR$14,815 tri
jun/2026R$0,663 triR$7,647 triR$15,762 tri

Fonte: SGS/BCB; cálculos de conversão de milhares de reais para trilhões.

Agregados monetários do Brasil

O gráfico não deve ser lido como uma curva de “impressão de dinheiro”. A diferença é particularmente importante para M4, porque o próprio BCB informa que M4 acrescenta títulos públicos federais ao M3. Portanto, um aumento de dívida pública líquida emitida e mantida pelo setor financeiro pode elevar M4 sem que o Banco Central tenha colocado quantia equivalente em cédulas ou em depósitos à vista.

A grande anomalia de M1 ocorre em 2020: R$447,7 bilhões no fim de 2019, R$641,1 bilhões no fim de 2020, expansão de aproximadamente 43%. M1 chegou a R$653,4 bilhões no fim de 2021 e permaneceu próximo desse patamar nos anos seguintes. Em junho de 2026 estava em R$662,8 bilhões, apenas cerca de 3,9% acima de junho de 2025. Isso não é o padrão típico de um surto monetário acelerando agora.

O M2, porém, cresce mais: de R$6,95 trilhões em junho de 2025 para R$7,65 trilhões em junho de 2026, aumento de aproximadamente 10,1%. O M3 estava próximo de R$13,8 trilhões em maio de 2026; o M4 chegou a R$15,76 trilhões em junho. Portanto, há expansão de liquidez ampla, mas não um movimento equivalente em moeda de liquidez imediata.

O IPCA mostra três grandes episódios no recorte: 2002, com 12,53%; 2015, com 10,67%; e 2021, com 10,06%. O atual quadro é claramente menos intenso: 2025 fechou em 4,26% e julho de 2026 registrou 4,44% em doze meses.

IPCA 1999–2026

Há uma mudança institucional que torna comparações importantes: até 2024 a meta era avaliada pelo ano-calendário; desde janeiro de 2025 vigora uma meta contínua de 3%, com banda entre 1,5% e 4,5%, sendo formalmente caracterizado descumprimento quando a inflação fica fora da faixa por seis meses consecutivos. Em 2025, o BCB chegou a publicar carta por descumprimento após a inflação permanecer acima do limite; em novembro de 2025 o IPCA em doze meses retornou à faixa.

A força nominal do real mostra uma tendência inequívoca de longo prazo. O câmbio médio foi de aproximadamente R$1,81/US$ em 1999 e R$5,59/US$ em 2025. Em outras palavras, a quantidade de reais necessária para comprar um dólar aumentou aproximadamente 208%. Visto pela perspectiva inversa, o valor de um real medido em dólares caiu cerca de 67,5%. Isso, porém, não ocorreu de forma linear: o real apreciou fortemente durante grande parte de 2003–2011 e depois entrou em uma longa fase de depreciação.

Em 19 de agosto de 2026, a PTAX estava perto de R$5,1711/US$, portanto abaixo da média de 2025. Isso mostra por que dizer simplesmente “o real está no pior valor da história” sem especificar data, inflação e medida real/nominal pode ser enganoso.

Câmbio Brasil 1999–2026

O poder de compra doméstico também não é sinônimo de câmbio. Utilizando o salário mínimo nominal de fim de período e deflacionando-o aproximadamente pelo IPCA, o índice real calculado neste estudo sobe de 100 em 1999 para cerca de 114 em 2002, 156 em 2006, 186 em 2010, 208 em 2014, 219 em 2018, 219 em 2022 e aproximadamente 247 em julho de 2026. A metodologia é aproximada porque alguns reajustes do mínimo ocorreram durante o ano; portanto, o gráfico deve ser interpretado como

índice de longo prazo, não como cálculo de renda média familiar. O ganho real do mínimo durante os anos 2000 também é documentado por estudos do Ipea.

Índice de salário mínimo real

Esse é um dos pontos em que uma narrativa simplista pode ser objetivamente desmontada: é possível que a moeda brasileira perca valor frente ao dólar e, simultaneamente, que o salário mínimo ganhe poder de compra doméstico. São grandezas diferentes.

A cesta básica mostra esse fenômeno com ainda mais clareza. Em São Paulo, a média anual da cesta equivalia a 79,86% de um salário mínimo em 1999, 78,47% em 2000, 73,51% em 2001, 70,53% em 2002, 73,20% em 2003, 68,09% em 2004, 62,60% em 2005 e 52,67% em 2006. Em termos de quantidade de cestas compráveis, o salário mínimo passou de aproximadamente 1,25 cesta em 1999 para cerca de 1,9 em 2006.

Nos anos recentes, o custo voltou a pressionar fortemente a renda. A cesta de São Paulo chegou a R$631,46 em dezembro de 2020 e a R$896,15 em maio de 2025; este último valor correspondia a aproximadamente 59% do salário mínimo de R$1.518. Em janeiro de 2026, a proporção média calculada pelo DIEESE para cidades com série completa era próxima de 50,94%. Como esses pontos recentes não têm exatamente a mesma metodologia das médias anuais antigas, estão separados no gráfico.

Cesta básica versus salário mínimo

A metodologia da cesta explica parte da percepção cotidiana que o IPCA agregado não capta perfeitamente: a pesquisa acompanha treze alimentos básicos — carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão, café, banana, açúcar, óleo/banha e manteiga — e mede diretamente o gasto necessário para adquiri-los. Como alimentos pesam proporcionalmente mais para famílias de menor renda, inflação de comida pode gerar sensação de perda de poder de compra maior que o IPCA médio.

Em julho de 2026 ocorreu justamente uma divergência interessante: alimentos e bebidas caíram 0,67% no mês, enquanto habitação aumentou 0,99%, e energia elétrica residencial subiu 3,09%. Isso ajuda a explicar por que uma inflação mensal de apenas 0,07% não significa que todas as despesas domésticas estejam praticamente estáveis.

Para moradia e renda média, a comparação 1999–2026 é menos limpa. A PNAD Contínua mostra renda real habitual dos ocupados de R$3.560 em média em 2025 e níveis ainda maiores em alguns trimestres de 2026, mas não é metodologicamente correto colar essa série à antiga PNAD sem ajustes. É por isso que o relatório não produz um falso gráfico de “salário médio homogêneo 1999–2026”.

Setor externo, commodities, pré-sal e grandes eventos As reservas internacionais constituem uma das maiores transformações estruturais desde 1999. Elas ficaram perto de US$36 bilhões em 1999 e US$37,8 bilhões em 2002; cresceram para US$85,8 bilhões em 2006, US$288,6 bilhões em 2010 e mais de US$350 bilhões na década seguinte. No fim de 2025 estavam em aproximadamente US$358,2 bilhões no conceito caixa do BCB e, em junho de 2026, em cerca de US$367,6 bilhões.

Reservas internacionais do Brasil

Isso altera profundamente o risco cambial. Em 2002, uma perda de alguns bilhões de dólares representava fração relevante das reservas. Em 2026, o país possui um estoque quase dez vezes maior em dólares. Reservas não impedem a desvalorização do real, mas reduzem o risco de falta de moeda estrangeira e oferecem ao BCB instrumentos para lidar com disfuncionalidades cambiais.

O comércio exterior também mudou de escala. Dados oficiais do MDIC/Comex Stat mostram que o país passou a exportar centenas de bilhões de dólares por ano. O saldo comercial atingiu aproximadamente US$99 bilhões em 2023, caiu para cerca de US$74 bilhões em 2024 e aproximadamente US$68 bilhões em 2025. Em julho de 2026, as exportações mensais estavam em cerca de US$34,1 bilhões, as importações em US$27,1 bilhões e o superávit mensal perto de US$7,1 bilhões.

A ascensão das commodities foi decisiva nos anos 2000. O Banco Mundial avalia que o Brasil, como grande exportador de commodities, foi beneficiado por termos de troca excepcionalmente favoráveis e que isso ajudou a encher os cofres públicos e sustentar superávits primários durante boa parte da década. Há também documentação de que o valor das exportações quase triplicou durante o boom de commodities entre 2003 e 2008.

Isso ajuda a interpretar a valorização cambial de parte do período Lula. Mais dólares entrando por exportações e capital aumentam a oferta de moeda estrangeira e podem fortalecer o real. Mas esse mecanismo não anula o papel de política monetária, credibilidade, juros, risco-país, investimento externo e crescimento interno. “Foi tudo Lula” e “foi tudo China/commodities” são ambas conclusões mais fortes que a evidência permite.

A descoberta comercial do pré-sal ocorreu em 2006. A Petrobras informa que a produção começou em 2008 no campo de Jubarte e em 2009 na Bacia de Santos. Em 2025, sua produção própria no pré-sal atingiu aproximadamente 2,56 milhões de barris de óleo equivalente por dia, enquanto a produção operada chegou a cerca de 3,88 milhões.

O pré-sal não deve ser tratado como “dinheiro encontrado em 2006”. Entre descoberta, desenvolvimento, FPSOs, perfuração, conexão de poços, produção, exportação e recolhimento fiscal existem anos e dezenas de bilhões em investimento. A escala atual, entretanto, é indiscutivelmente grande: somente em 2025, a Petrobras afirma ter pago R$277,6 bilhões em tributos, participações especiais e royalties, enquanto investiu R$112,9 bilhões e produziu 2,99 milhões de boe/d no total da companhia.

O campo de Búzios ilustra a escala atingida: com a entrada da P-78 no fim de 2025, a capacidade instalada do campo aproximou-se de 1,15 milhão de barris/dia. Logo, o pré-sal é hoje estruturalmente muito mais importante para geração de exportações, tributos, royalties e divisas do que era no momento da descoberta.

A Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, ao contrário, não devem ser automaticamente classificadas como “dinheiro que entrou no país”. Megaeventos geram turismo, atividade e ativos de infraestrutura, mas possuem gastos públicos e privados. O TCU registrou para os Jogos Rio 2016 custos da ordem de R$37,5 bilhões, dos quais aproximadamente 43% tinham origem pública. Portanto, qualquer narrativa sobre “quanto a Olimpíada trouxe” precisa descontar custos e separar investimentos que teriam sido realizados de qualquer maneira.

A Copa igualmente envolveu uma matriz de responsabilidades compartilhada entre União, estados, municípios, Caixa e BNDES para obras e financiamentos. Isso significa que o valor total de obras não pode ser equiparado nem a “gasto federal” nem a “prejuízo”: há financiamento reembolsável, investimento urbano, recursos estaduais, municipais e privados.

No período Bolsonaro, o exterior voltou a ser decisivo por motivos diferentes. O BCB registra que a guerra iniciada na Ucrânia em 2022 provocou choque de oferta e pressão sobre combustíveis e commodities; alimentos haviam sofrido elevação significativa e posteriormente apresentaram desaceleração conforme parte do choque se dissipou. Portanto, comparar inflação de 2021–22 com 2017–18 sem controlar pandemia, cadeias globais, energia e guerra induz a erro.

O atual setor externo continua relativamente robusto em estoque de reservas, mas o Focus de agosto de 2026 projeta déficit em conta corrente de cerca de US$60 bilhões para 2026, compensado em grande parte por projeção de investimento direto de aproximadamente US$79,5 bilhões. Não é uma crise externa instalada, porém demonstra que superávit comercial não equivale automaticamente a superávit de todas as transações externas.

Fiscalidade, tributação, corrupção e custo de oportunidade A principal fonte de risco macroeconômico em 2026 é fiscal. Em junho, o setor público consolidado acumulava déficit primário de R$157,2 bilhões em doze meses, equivalente a 1,19% do PIB. Os juros nominais chegavam a R$1,1605 trilhão, ou 8,80% do PIB, e o déficit nominal a R$1,3178 trilhão, 9,99% do PIB.

A Dívida Líquida do Setor Público chegou a 68,5% do PIB, ou R$9,0 trilhões, e a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou 81,9% do PIB, cerca de R$10,8 trilhões, em junho de 2026. O próprio BCB atribuiu a elevação mensal principalmente a juros apropriados, emissões líquidas e dinâmica do PIB.

Esses números são relevantes para inflação e câmbio porque uma deterioração fiscal persistente pode aumentar prêmio de risco, juros longos e demanda por moeda estrangeira. Mas a relação não é mecânica: o BCB mostra inclusive que valorização/desvalorização cambial produz efeitos contábeis sobre a própria dívida líquida em razão da posição externa do setor público.

A carga tributária também merece cuidado metodológico. O Tesouro estimou a carga tributária bruta do governo geral em 32,40% do PIB em 2025, informando aumento de 0,18 ponto percentual sobre 2024 segundo a metodologia mais recente. Uma publicação anterior havia estimado 2024 em 32,32% do PIB. A diferença mostra que as séries são revisadas; comparar percentuais publicados em anos diferentes sem controlar revisão metodológica pode gerar resultados inconsistentes.

Em 2026 começou a fase de testes da nova tributação do consumo. A CBS aparece com alíquota de teste de 0,9% e o IBS de 0,1%; a Receita esclarece que, nessa fase, o valor da CBS deve ser compensado com PIS/Cofins e que existem regras de dispensa do recolhimento de teste quando cumpridas obrigações acessórias. Assim, simplesmente dizer que “o governo acrescentou 1% de imposto em 2026” sem considerar compensações seria enganoso.

A corrupção exige ainda mais precisão. O quadro abaixo não representa “todo o dinheiro roubado”, mas apenas números oficiais de grande magnitude que podem ser comparados com alguma segurança.

Valor oficial Caso/instrumento O que o número significa encontrado

STF julgou e condenou diversos réus; não há um único AP 470 — sem total único “total roubado” oficial que possa ser colocado ao lado Mensalão comparável das demais categorias

valor efetivamente devolvido em estágio documentado Lava Jato ≈R$4,07 bi pelo MPF

valores previstos em diferentes acordos; não significa Lava Jato ≈R$14,3 bi R$14,3 bi comprovadamente roubados

estimativa investigativa de possível prejuízo a fundos de Greenfield até R$8 bi pensão

Acordos de leniência CGU/ >R$20 bi montante pactuado em 34 acordos até 2025 AGU

Acordos de montante que já havia efetivamente retornado ao erário leniência CGU/ R$11,17 bi até dez/2025 AGU

Fontes primárias: STF, MPF, CGU/AGU. Os valores de leniência e Lava Jato podem se sobrepor; não devem ser somados.

A AP 470 resultou em condenações criminais de agentes políticos, operadores e outros envolvidos. Há decisões individualizadas do STF, inclusive condenações por corrupção e lavagem. Isso comprova a existência do esquema julgado; não autoriza, porém, afirmar juridicamente que todos os integrantes dos partidos aos quais alguns condenados pertenciam fossem participantes.

A Lava Jato gerou acordos, devoluções e condenações de enorme dimensão, mas seu legado jurídico é complexo. No caso específico de Lula, o STF confirmou em 2021 a anulação das condenações oriundas da 13ª Vara Federal de Curitiba por entender que aquele juízo era incompetente para julgar as ações. Portanto, é incorreto apresentar Lula, hoje, como alguém que conserva aquelas condenações criminais válidas. Isso não apaga automaticamente todos os fatos, acordos empresariais ou valores recuperados em outros processos, mas muda radicalmente o status jurídico pessoal.

A forma mais rigorosa de representar a “árvore genealógica” da corrupção brasileira recente é separar instituições, contratos, empresas, agentes e status jurídico, em vez de desenhar uma árvore que presuma culpa por proximidade:

Lula — processos de

AP 470 — Mensalão Greenfield CGU + AGU

Curitiba

Agentes políticos e

STF — julgamentos e Investimentos Possível prejuízo estimado 34 acordos de leniência Condenações de

operadores condenados Lava Jato Fundos de pensão

condenações investigados — não igual a perda final até 2025 instâncias inferiores

Anuladas pelo STF em

Vínculos partidáriosEmpreiteiras eAgentes políticos eMPF / PF / Justiça /R$11,17 bi efetivamente
Petrobras> R$20 bi pactuados2021 por incompetência
diversosfornecedoresexecutivosacordosrecuperados

investigação ou vínculo vínculo político não não equivale a implica culpa coletiva condenação

Estrutura Acordos de colaboração e

político-administrativa Valores recuperados

Ministérios / estatais / fundos / bancos públicos

Contratos, compras, concessões e investimentos

Empresas privadas eAgentes públicos /
consórciosdirigentes

Intermediários / operadores / executivos

Essa rede é deliberadamente diferente de uma “lista de corruptos”. Associação a governo, empresa, partido ou pessoa condenada não é prova individual de crime. A abordagem acima permite conectar os casos sem transformar proximidade política em imputação criminal.

O custo de oportunidade pode ser demonstrado, mas somente como equivalência financeira, e não como prova de que determinado hospital ou escola deixou efetivamente de ser construído. O FNDE informou custo médio de aproximadamente R$3,5 milhões por unidade escolar em uma edição do Novo PAC Seleções Educação de 2025.

Aplicando apenas essa referência:

Montante usado na comparaçãoEquivalência teórica a R$3,5 mi/escola
R$4,07 bi efetivamente devolvidos na Lava Jato≈1.163 escolas
R$8 bi de possível prejuízo estimado na Greenfield≈2.286 escolas
R$11,17 bi já recuperados em acordos de leniência≈3.191 escolas
R$20 bi pactuados em acordos de leniência≈5.714 escolas

Esses números não devem ser somados e tampouco significam que tal quantidade de escolas realmente teria sido construída. Valores de períodos diferentes não foram ajustados para inflação, há sobreposição entre acordos e investigações, e “possível prejuízo”, “recuperado” e “pactuado” são conceitos distintos. O objetivo é apenas tornar a escala compreensível.

Para hospitais e saneamento, uma equivalência única seria ainda menos defensável. Um hospital de pequeno porte, uma UBS e um hospital universitário possuem custos radicalmente diferentes; projetos de saneamento dependem de extensão de rede, tratamento, topografia e número de domicílios. Por isso, este relatório prefere não fabricar uma quantidade chamativa de “hospitais que poderiam ter sido construídos” com um custo unitário arbitrário.

Esse cuidado também impede um erro recorrente: R$14,3 bilhões “previstos em acordos” não são automaticamente R$14,3 bilhões furtados; R$11,17 bilhões recuperados por leniência não podem

necessariamente ser adicionados aos R$4,07 bilhões da Lava Jato; e os R$8 bilhões da Greenfield foram descritos como possível prejuízo em investigação, não como perda final judicialmente fixada.

Risco inflacionário e cambial em agosto de 2026 O ponto de partida do diagnóstico atual é objetivo. Em julho de 2026, o IPCA mensal foi 0,07%, acumulava 3,44% no ano e 4,44% em doze meses. A meta contínua é 3%, com banda de 1,5% a 4,5%. A inflação corrente, portanto, está 0,06 ponto percentual abaixo do teto, mas 1,44 ponto acima do centro.

O mercado, contudo, não espera que o problema esteja resolvido. No Focus de 14 de agosto de 2026, a mediana apontava IPCA de 5,02% em 2026, 4,24% em 2027 e 3,80% em 2028; câmbio de R$5,20/US$ no fim de 2026; Selic de 13,75%; crescimento do PIB de aproximadamente 1,98%; déficit primário de 0,50% do PIB e dívida líquida de 69,9% do PIB. Focus representa expectativas de mercado coletadas pelo BCB, e não uma previsão oficial do Banco Central.

A taxa Selic estava em 14,00% ao ano após a reunião de 5 de agosto de 2026. Uma taxa dessa magnitude é restritiva e constitui uma barreira relevante contra aceleração de demanda e desancoragem inflacionária, mas também eleva o custo da dívida pública e pode ampliar o déficit nominal quando mantida por muito tempo.

O quadro monetário não sinaliza, isoladamente, um episódio semelhante a 2020: M1 cresceu aproximadamente 3,9% em doze meses até junho de 2026. M2 avançou cerca de 10,1%, indicando expansão mais forte da liquidez financeira ampla. M4 avançou cerca de 6,4% entre dezembro de 2025 e junho de 2026. Como M2–M4 incluem instrumentos remunerados e títulos, a transmissão para consumo e IPCA depende de juros, crédito, expectativas e velocidade de circulação.

O maior vetor de risco é a interação fiscal-cambial. Com DBGG de 81,9% do PIB, juros nominais de 8,80% do PIB em doze meses e déficit nominal de 9,99%, uma deterioração de confiança pode elevar o prêmio de risco, pressionar a moeda e transmitir inflação por combustíveis, insumos, bens industriais e expectativas. Ao mesmo tempo, US$367,6 bilhões em reservas e Selic de 14% constituem amortecedores fortes.

Os cenários abaixo são stress tests construídos neste relatório, não previsões oficiais e não probabilidades estatísticas:

Cenário Hipóteses Leitura

fiscal sem ruptura, commodities inflação acima da Base sem novo choque, Selic 4,8%–5,5% R$5,0–5,5 meta, mas controlável permanece restritiva

depreciação de 10%–18%, nova rodada

Adverso alimentos/energia voltam a 6,0%–7,5% R$5,7–6,1 importante de

subir, piora fiscal moderada inflação

choque fiscal + externo quadro semelhante simultâneo, câmbio perde Severo 8%–10%+ R$6,2–7,0+ aos piores episódios >20%, commodities/energia pós-Real recentes sobem fortemente

A faixa-base está próxima da mediana Focus de 5,02%. Os cenários adverso e severo são deliberadamente choques hipotéticos; servem para mostrar sensibilidade, não para afirmar que R$7/ US$ ou inflação de 10% ocorrerão.

Minha avaliação é que o risco de inflação permanecer acima de 4,5% é alto; o risco de um surto acima de 8% nos próximos doze meses é moderado e não constitui o cenário-base atual. A razão é que os riscos fiscais e cambiais estão objetivamente elevados, mas M1 não está acelerando de forma explosiva, os juros reais são altos, as reservas externas são expressivas e a inflação corrente está muito abaixo dos picos de 2002, 2015 e 2021.

O perigo maior é um mecanismo de realimentação: déficit e dívida elevam prêmio de risco → o real desvaloriza → inflação importada sobe → expectativas pioram → BCB precisa manter juros elevados → juros aumentam a despesa nominal → a trajetória da dívida piora. Esse mecanismo é economicamente plausível, mas não é inevitável: melhora fiscal, produtividade, crescimento, exportações, investimento direto e credibilidade monetária podem interrompê-lo. A própria composição externa líquida do setor público faz com que os efeitos contábeis do câmbio sobre a dívida sejam mais complexos do que a simples frase “dólar alto aumenta toda a dívida”.

O que os dados permitem afirmar e o que não permitem A afirmação “o PT simplesmente imprimiu dinheiro, por isso M4 explodiu” não é sustentada pela definição do Banco Central. M4 contém títulos públicos federais e outros instrumentos financeiros; seu crescimento não equivale a emissão de base monetária. Para investigar emissão/liquidez imediata é muito mais adequado observar M1, base monetária, crédito e balanço do BCB em conjunto.

A afirmação “a moeda só perdeu valor nos governos do PT” também é falsa. O real sofreu grande desvalorização no fim do governo FHC, apreciou fortemente durante parte dos governos Lula, voltou a depreciar a partir da década de 2010, perdeu bastante valor nos períodos Dilma, Temer e Bolsonaro, e continua em patamar nominal muito mais fraco que nos anos 2000 durante o atual Lula. A trajetória é multigovernamental.

A afirmação “o crescimento dos anos Lula prova sozinho superioridade de gestão” excede a evidência, porque o contexto internacional foi extraordinariamente favorável. O Banco Mundial documenta o papel dos termos de troca e commodities. Mas a afirmação oposta, “todo o crescimento foi apenas commodities”, também excede a evidência porque políticas domésticas, emprego, crédito, salário mínimo, estabilidade macroeconômica e acumulação de reservas atuaram simultaneamente.

A afirmação “o pré-sal foi descoberto e o governo ganhou instantaneamente uma fortuna” é errada. A descoberta comercial ocorreu em 2006; produção começou em 2008–09 e demorou anos para adquirir a escala atual. Em 2025, porém, tornou-se indiscutivelmente uma fonte gigantesca de petróleo, exportações, tributos e royalties.

A afirmação “Copa e Olimpíada trouxeram bilhões, portanto foram lucro” não pode ser sustentada sem um balanço líquido. Os eventos geraram atividade e turismo, mas também gastos substanciais; o TCU registra cerca de R$37,5 bilhões associados ao Rio 2016, 43% com origem pública. Receita bruta não é lucro social líquido.

A afirmação “todos os números divulgados em operações anticorrupção representam dinheiro comprovadamente roubado” é falsa. Um número pode representar indenização, multa, acordo,

bloqueio, potencial prejuízo, restituição pedida ou recuperação efetiva. Usar todos como se fossem a mesma coisa produz inevitavelmente dupla contagem e exagero.

Da mesma forma, proximidade política não é prova jurídica de corrupção. Há agentes individualmente condenados em diferentes casos, empresas que celebraram acordos, pessoas investigadas e pessoas cujas condenações foram anuladas. No caso de Lula, as condenações da Lava Jato em Curitiba foram anuladas pelo STF em 2021; logo, um relatório que o apresente como “condenado atualmente na Lava Jato” estaria juridicamente desatualizado.

A afirmação “o Brasil já está entrando agora em uma nova hiperinflação” também não encontra apoio nos dados de agosto de 2026. IPCA de 4,44% em doze meses, M1 crescendo aproximadamente 3,9% a/a, Selic de 14% e reservas acima de US$360 bilhões são incompatíveis com a descrição de uma crise monetária fora de controle.

Mas a narrativa oposta — “a inflação está resolvida e não existe risco” — também não condiz com os números. O Focus ainda espera 5,02% em 2026; a inflação projetada está acima da banda; a dívida bruta atingiu 81,9% do PIB; o déficit nominal chegou a 9,99% do PIB e os juros nominais a 8,80%. O país não está em colapso monetário, mas possui uma combinação fiscal-monetária cara e vulnerável.

Finalmente, a análise de poder de compra mostra por que a percepção popular pode divergir de indicadores agregados. O salário mínimo real aumentou bastante desde 1999, mas habitação, energia e alimentos podem apresentar trajetórias muito diferentes; a cesta básica voltou a absorver parcela elevada do mínimo em vários momentos recentes. Uma família não consome “o IPCA médio”: ela consome sua combinação particular de aluguel, comida, energia, transporte, medicamentos e crédito.

O diagnóstico que melhor resiste aos dados é, portanto, o seguinte: o Brasil de 2026 está muito mais protegido externamente do que o Brasil recebido por Lula em 2003, possui maior renda real e reservas muito superiores, mas também carrega dívida pública muito maior em termos nominais, déficit nominal elevado, juros extremamente caros, moeda estruturalmente mais fraca frente ao dólar e um histórico de grandes escândalos de corrupção e perdas de eficiência pública. Houve períodos de melhora e deterioração sob todos os blocos políticos analisados. O atual ponto crítico não é uma “explosão monetária” já materializada, mas o risco de fiscal frágil + juros altos + desancoragem de expectativas + choque externo transformar uma inflação ainda moderada em nova rodada de câmbio e preços.

A evidência também mostra por que o período de 1999 a 2026 precisa ser analisado como uma cadeia: FHC legou o regime macroeconômico e uma economia sob forte estresse cambial; Lula combinou esse regime com o ciclo externo favorável e grande acumulação de reservas; Dilma recebeu reservas altas e ambiente ainda favorável no início, mas terminou em profunda recessão; Temer recebeu essa recessão e devolveu inflação baixa, porém crescimento fraco; Bolsonaro recebeu inflação baixa e reservas altas, enfrentou o choque excepcional da pandemia e terminou com inflação ainda elevada e reservas menores; Lula III recebeu desemprego em queda e inflação pós- pandemia desacelerando, mas em 2026 enfrenta dívida, juros e déficit nominal que tornam a sustentabilidade fiscal o principal teste para a estabilidade futura da moeda.

1 4 19 20 23 24 25 https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG?locations=BR https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG?locations=BR

2 21 27 https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/planoreal https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/planoreal

3 44 45 https://documents1.worldbank.org/curated/en/143111468197370875/pdf/101431-

REVISED-v2-SCD-Brazil-Systematic-Country-Diagnostic-Vol-2.pdf https://documents1.worldbank.org/curated/en/143111468197370875/pdf/101431-REVISED-v2-SCD-Brazil-Systematic- Country-Diagnostic-Vol-2.pdf

5 7 28 29 30 https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.27791/dados?formato=json https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.27791/dados?formato=json

6 https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45613- ipca-em-dezembro-vai-a-0-33-e-acumula-4-26-em-2025 https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45613-ipca-em-dezembro-vai- a-0-33-e-acumula-4-26-em-2025

8 Estatísticas do setor externo https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticassetorexterno?utm_source=chatgpt.com

9 63 64 Valor devolvido pela Lava Jato já ultrapassa os R$ 4 bilhões https://combateacorrupcao.mpf.mp.br/feeder_novo/lava-jato/ece8f4ba84ad6efee82530addb57bd3a? utm_source=chatgpt.com

10 17 71 https://dadosabertos.bcb.gov.br/dataset/27810-sgs https://dadosabertos.bcb.gov.br/dataset/27810-sgs

11 12 18 https://dadosabertos.bcb.gov.br/dataset/27791-sgs https://dadosabertos.bcb.gov.br/dataset/27791-sgs

13 INPC - Índice Nacional de Preços ao Consumidor https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9258-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor.html? utm_source=chatgpt.com

14 38 https://www.dieese.org.br/metodologia/metodologiaCestaBasica2016.pdf https://www.dieese.org.br/metodologia/metodologiaCestaBasica2016.pdf

15 https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-

desocupacao-cai-para-5-1-em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie-historica https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-desocupacao-cai-para-5-1- em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie-historica

16 https://data.worldbank.org/indicator/PA.NUS.FCRF?locations=BR https://data.worldbank.org/indicator/PA.NUS.FCRF?locations=BR

22 32 78 https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/historicometas https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/historicometas

26 https://www.gov.br/mre/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/discursos-artigos-e-entrevistas/ presidente-da-republica/presidente-da-republica-federativa-do-brasil-entrevistas/luiz-inacio-lula-da- silva-2023-2026 https://www.gov.br/mre/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/discursos-artigos-e-entrevistas/presidente-da-republica/ presidente-da-republica-federativa-do-brasil-entrevistas/luiz-inacio-lula-da-silva-2023-2026

31 https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.27810/dados?formato=json https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.27810/dados?formato=json

33 https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/metainflacao https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/metainflacao

34 https://www.bcb.gov.br/rex/sml/PRY_taxas.asp?frame=1 https://www.bcb.gov.br/rex/sml/PRY_taxas.asp?frame=1

35 https://repositorio.ipea.gov.br/bitstreams/bee07917-2168-4720-a6d4-12bdadc5bea4/download https://repositorio.ipea.gov.br/bitstreams/bee07917-2168-4720-a6d4-12bdadc5bea4/download

36 https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/2006/200612cestabasica/9.html https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/2006/200612cestabasica/9.html

37 https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/2020/202012cestabasica.pdf https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/2020/202012cestabasica.pdf

39 76 https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/236/inpc_ipca_2026_jul.pdf https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/236/inpc_ipca_2026_jul.pdf

41 42 77 https://data.worldbank.org/indicator/FI.RES.TOTL.CD?locations=BR https://data.worldbank.org/indicator/FI.RES.TOTL.CD?locations=BR

43 https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/camex/outros-documentos/notas/deferimentos/233a- reuniao-ordinaria-do-comite-executivo-de-gestao-gecex/nota_tecnica_501_mf_2026.pdf/ https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/camex/outros-documentos/notas/deferimentos/233a-reuniao-ordinaria-do-comite- executivo-de-gestao-gecex/nota_tecnica_501_mf_2026.pdf/

46 73 https://petrobras.com.br/pre-sal https://petrobras.com.br/pre-sal

47 https://agencia.petrobras.com.br/w/negocio/lucro-l%C3%ADquido-da-petrobras-alcan%C3%A7a-

r-110-bilh%C3%B5es-em-2025 https://agencia.petrobras.com.br/w/negocio/lucro-l%C3%ADquido-da-petrobras-alcan%C3%A7a-r-110-bilh%C3%B5es- em-2025

48 https://agencia.petrobras.com.br/w/petrobras-inicia-produ%C3%A7%C3%A3o-de-b%C3%BAzios-6 https://agencia.petrobras.com.br/w/petrobras-inicia-produ%C3%A7%C3%A3o-de-b%C3%BAzios-6

49 https://portal.tcu.gov.br/data/pages/8A81881F77D527280177D57AE0713414.htm https://portal.tcu.gov.br/data/pages/8A81881F77D527280177D57AE0713414.htm

50https://sites.tcu.gov.br/recursos/contas-do-governo-2011/fichas/CG%202011%20- %20Cap%C3%ADtulo%206%20-%20Sustentabilidade%20do%20Crescimento.pdf https://sites.tcu.gov.br/recursos/contas-do-governo-2011/fichas/CG%202011%20-%20Cap%C3%ADtulo%206%20- %20Sustentabilidade%20do%20Crescimento.pdf

51 https://www.bcb.gov.br/content/ri/relatorioinflacao/202206/ri202206p.pdf https://www.bcb.gov.br/content/ri/relatorioinflacao/202206/ri202206p.pdf

52 66 75 https://www.bcb.gov.br/content/focus/focus/R20260814.pdf https://www.bcb.gov.br/content/focus/focus/R20260814.pdf

53 54 55 https://www.bcb.gov.br/content/estatisticas/hist_estatisticasfiscais/

202607_Texto_de_estatisticas_fiscais.pdf https://www.bcb.gov.br/content/estatisticas/hist_estatisticasfiscais/202607_Texto_de_estatisticas_fiscais.pdf

56 https://www.gov.br/tesouronacional/pt-br/noticias/carga-tributaria-bruta-do-governo-geral- atinge-32-40-do-pib-em-2025 https://www.gov.br/tesouronacional/pt-br/noticias/carga-tributaria-bruta-do-governo-geral-atinge-32-40-do-pib-em-2025

57 https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas-e- atividades/reforma-tributaria-do-consumo/entenda https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas-e-atividades/reforma- tributaria-do-consumo/entenda

58 61 Ex-presidente do STF, Ayres Britto rememora momentos ... https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=462620&ori=1&utm_source=chatgpt.com

59 Ministra Cármen Lúcia julga AP 470 procedente quanto a ... https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/ministra-carmen-lucia-julga-ap-470-procedente-quanto-a-oito-reus-por-corrupcao- ativa/?utm_source=chatgpt.com

60 https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=464261&ori=1 https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=464261&ori=1

62 https://www.gov.br/fnde/pt-br/assuntos/noticias/novo-pac-selecoes-educacao-inscricoes-vao-

ate-31-3 https://www.gov.br/fnde/pt-br/assuntos/noticias/novo-pac-selecoes-educacao-inscricoes-vao-ate-31-3

65 69 74 https://www.ibge.gov.br/explica/inflacao.php https://www.ibge.gov.br/explica/inflacao.php

67 Copom reduz a taxa Selic para 14,00% a.a. https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/21215/nota?utm_source=chatgpt.com

Texto integral do estudo, transcrito para leitura no site. Ver também a cronologia auditada e os gráficos de indicadores.